Como a junção entre rádio e esporte influenciou a cultura brasileira

0

As ondas do rádio têm a capacidade de nos transportar para um mundo mágico. E, quando a Rádio Nacional se conectou aos valores do esporte – dedicação, derrota, vitória e superação -, pode-se dizer que ali se formou um pouco do que nos faz bater no peito hoje e dizer: “Aqui é Brasil!”.

▶️ Este episódio é parte da série 90 anos em 90 histórias, que originalmente vai ao ar em toda a cadeia Nacional, diariamente, às 10h e às 20h. A Radioagência Nacional publicará todas as edições, com reprodução gratuita. Ouça e baixe aqui.  

A emissora colaborou para que a população imaginasse partidas, gols, craques e títulos. A Nacional não apenas transmitiu o futebol. Ela colaborou para a forma brasileira de sentir o esporte.

“A sensação era de que realmente eu estava falando para o Brasil inteiro em alguns momentos, naquele tradicional slogan da Rádio Nacional, Nacional Rio, Nacional Brasília, Nacional Amazônia. Ou seja, a gente tinha, e tem até hoje, a sensação de que quando estamos ao microfone da Rádio Nacional, estamos falando efetivamente para todo o Brasil”.

Esse foi Luiz Carlos Monteiro, ex-narrador de esportes da Nacional.

E a professora e pesquisadora Leda Maria da Costa fala sobre como o imaginário coletivo criado no Brasil sobre o esporte teve o rádio como ajudante nessa construção.

“O rádio tem um papel muito importante na construção cultural do país, na construção identitária do Brasil. E, ao se juntar com os esportes, vai se formar uma relação de retroalimentação constante, em que o rádio catapulta a popularização de alguns esportes, principalmente o futebol. E os esportes também vão ser um elemento de fortalecimento da presença do rádio, tanto no imaginário quanto no cotidiano dos brasileiros e das brasileiras”.

A construção desse imaginário coletivo acontecia semana após semana. Campeonato Carioca, Copa do Mundo, amistosos da Seleção. O Brasil compartilhava as mesmas emoções.

Como o Rio de Janeiro era a capital federal, eram os times da cidade que ecoavam nas antenas de todo o país, criando uma relação de afeto com os clubes para além da Guanabara, como conta o narrador da Nacional, André Luiz Mendes.

“Os quatro cariocas hoje têm efetivamente a força que têm no futebol por causa da Rádio Nacional. Quem diz isso não sou eu. Quem diz isso são os maiores comunicadores esportivos do rádio brasileiro e jornalistas também. Pedro Bial, Galvão Bueno, Se hoje Fluminense, Botafogo, Vasco e Flamengo têm parte do que são, devem agradecer à Rádio Nacional, que, num momento escuro, pôs uma luz para os clubes cariocas em todo o Brasil”.

Quebra de estereótipos

Essa sintonia que ia sendo criada entre o público e a Nacional vinha da cobertura esportiva, mas também vinha do restante da programação da emissora. Radionovelas, jornalismo e, claro, a nossa música.

Era uma época na qual o samba estava ganhando cada vez mais o gosto popular. E aí, a Rádio Nacional começa a se envolver em uma temática social específica, chamada pelo pesquisador Luiz Antonio Simas de “intelectuais fronteiriços”.

É que, no começo do século XX, o samba no Brasil estava muito associado a pessoas negras. Já o futebol era mais associado a uma elite branca. E aí, a programação geral da Rádio Nacional começava a mostrar que algumas dessas barreiras estavam sendo quebradas.

Simas dá um exemplo sobre esse panorama cultural da época.

“Vou te dar um exemplo aqui, muito simples. O Noel Rosa nasceu em 1910, em Vila Isabel, como um menino branco de classe média do Rio de Janeiro. O Leônidas da Silva nasceu em 1913, no Rio de Janeiro, em São Cristóvão, negro e filho de uma trabalhadora doméstica. Eu tenho impressão que todo mundo diria que o sambista seria o Leônidas e o jogador seria o Noel. Só que, na década de 30, o Leônidas é o Diamante Negro, ele é o artilheiro da Copa do Mundo de 1938, ele é o primeiro negro garoto-propaganda da história do Brasil; e o Noel é o sambista que, em curtíssimo tempo de carreira, é consagrado. Eu acho que a rádio está inserida nisso e estimula também esses fluxos, que acaba repercutindo fortemente no panorama da cultura”.

Camadas complexas da nossa sociedade brasileira que, ano após ano, vão sendo ouvidas na programação da emissora mais querida do país.

Créditos:

Este episódio usou áudios do acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e do especial da Rádio MEC. Mario Sartorello interpreta o texto do cartaz da RCA Victor. Apresentação e produção de Guilherme Strozi e Raquel Júnia. Colaboração: Cezar Faccioli. A pesquisa é da equipe do Acervo: Aline Brettas, Maria Carnevale, Mariana Nazareth e Thiago Guimarães.  A montagem, sonoplastia e mixagem é de Jailton Sodré. Os trabalhos técnicos são de Jaime Batista, Lucas Alexandre, Lucia Safatle, Márcio Freitas, Marcos Inácio, Rafael Espíndola, Rafael Napoleão e Rafael Thomaz. Coordenação de Produção e Programação: Cynthia Cruz. Gerência da Radio Nacional: Bianca Fingher. Gerência-executiva de Rádios: Carlos Senna. Concepção da série: Thiago Regotto.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *