Opinião: Quando a tribuna vira palco para ataques pessoais — e não para o interesse público

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O episódio envolvendo o cantor Felipão e o vereador Manoel Filho expõe, mais uma vez, um problema cada vez mais evidente na política local: o uso da tribuna legislativa não como espaço de debate qualificado, mas como arma para ataques pessoais, desinformação e disputas políticas travestidas de moralidade.
As falas do vereador, marcadas por gordofobia e insinuações políticas sem fundamento, não apenas desrespeitam um artista da cidade — desrespeitam a própria função pública que ele ocupa. Quando um representante eleito decide usar o microfone oficial para humilhar um cidadão, ele deixa claro que não compreendeu o princípio básico da vida pública: quem ocupa cargo político deve servir, não atacar.
É simbólico que Manoel Filho tenha criticado um evento do qual nem sequer participou. Sua fala não se baseou em fatos, mas em preconceitos, suposições e, ao que tudo indica, interesse político. Nesse contexto, as ofensas dirigidas a Felipão dizem menos sobre o artista e muito mais sobre a incapacidade do vereador de lidar com iniciativas culturais que não partem de seus aliados.
Mais grave ainda é o uso de referências bíblicas para justificar ataques. Quando um líder político se vale da fé para sustentar ofensas, ele não apenas deturpa o Evangelho — ele ofende uma comunidade inteira que entende a religião como espaço de acolhimento, não de humilhação. A reação de muitos fiéis deixa isso claro: a fé não pode ser instrumentalizada para legitimar preconceitos.
O festival que gerou toda a polêmica, vale lembrar, foi marcado pela valorização da cultura local: 14 das 21 atrações eram de Camaçari. Mas, num cenário politicamente polarizado, até iniciativas positivas são alvos de quem prefere o conflito ao diálogo.
A ida de Felipão à delegacia para registrar queixa-crime é, portanto, um gesto que vai além de sua defesa pessoal. Representa um limite necessário. A liberdade de expressão não autoriza ninguém — muito menos um vereador — a ofender, humilhar e desqualificar profissionais da cultura ou quaisquer cidadãos. E o fato de o discurso ter sido transmitido pelo canal oficial da Câmara só reforça a gravidade da situação.
Este caso deveria servir como alerta: a política local precisa urgentemente retomar o compromisso com o debate sério, responsável e respeitoso. Se vereadores transformam a tribuna num palco de ataques, cabe à sociedade exigir postura, ética e responsabilidade.
E, enquanto isso não acontece, que a Justiça faça o que a política, infelizmente, falhou em fazer: colocar limites onde o abuso ultrapassou o aceitável.
